quinta-feira, 8 de outubro de 2009

# Mora em mim (Ivens Scaff)

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Mora em mim um poeta
no crânio, narina, cotovelo
pele, nuca, cabelo
mamilo, umbigo, pentelho

mora em mim
um poeta atento
quando de olhos abertos
quando de olhos cerrados

mora em mim
um poeta cansado
arrastado por ruas descoloridas
por um feitor incansável
Em mim
Dorme um poeta
Que acorda desoras
Com o briho do sereno ao luar

Mora em mim um poeta
que acorda diverso
reflexo de lua no olhar
chuva noturna inesperada
sonora gargalhada

Se esconde em mim
Um poeta safado
Nem sempre conveniente
Impertinente, descarado

Trabalha em mim um poeta alquimista
transformado noites a fio
lágrimas aflitas, angústias
em doces gotas de orvalho

Mora em mim
um poeta instável
volúvel, viajante
que ama o atalho e a estrada

Mora em mim
um poeta dominado
ou tudo não passa de um jogo
poeta dissimulado

Mora em mim
um poeta baú
repositório de todas as angústias

Mora em mim
um poeta calado
que ama o silêncio e o areal

Se inquieta em mim um poeta
que ama o rock e o carnaval

Que como o bambú se curva
a todas as tradições

Mora em mim um poeta tranquilo que em sua casa
se sente em casa.
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Ivens Scaff
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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

# A Era da Estupidez

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Hoje faço desta página, o porto de uma mensagem que há muito tem sido divulgada, porém, com poucos ou nenhum resultado prático no mundo consumista em que vivemos.
Aqui apresento o vídeo do filme que será lançado nos próximos dias - A Era da Estupidez - A mensagem trata da conservação do nosso planeta, do nosso clima, da nossa biodiversidade. Sem mais apresentações, deixo a todos em companhia do post abaixo.
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Abraços
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Sady Folch
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Estreia verde - O palco principal do lançamento de "A era da estupidez" será em uma tenda inteiramente abastecida por energia solar, em Manhattan, Nova Iorque. Os convidados chegarão à festa por meio de transportes alternativos, como bicicletas, skates, veículos movidos a biodiesel de óleo de fritura e riquexós (táxis ecológicos de tração humana). Toda a energia utilizada no evento resultará em apenas 1% do carbono normalmente emitido em uma pré-estreia tradicional. A cerimônia será apresentada pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

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No Brasil - O Greenpeace apoia o lançamento do filme em nove cidades: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Campinas, Brasília, Salvador, Curitiba, Juiz de Fora e Santos. Em Porto Alegre, o apoio será da ONG Amigos da Terra. Consulte a programação no site da MovieMobz.
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terça-feira, 29 de setembro de 2009

# Haicai Pantaneiro (2)

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OS RAIOS DE SOL
INEBRIAM O SORRISO 
DE TODAS MANHÃS
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Sady Folch
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009

# Haicai Pantaneiro

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EM MEIO AO CALOR
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A LIBÉLULA DA CHUVA
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REFRESCOU O PÁSSARO
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Sady Folch

domingo, 27 de setembro de 2009

# Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada (Manoel de Barros)

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I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II

Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III

Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.
Baratas passeiam nas formas de bolo...
A casa tem um dono em letras.
Agora ele está pensando -
no silêncio Iíquido com que as águas escurecem as pedras...
Um tordo avisou que é março.

IV

Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V

Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI

No que o homem se torne coisal, corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana, que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII

O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VIII

Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados falassem um dialeto coisal, larval, pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural
- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX

Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.
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Manoel de Barros
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"O Guardador de Águas"
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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

# Perguntaiada (Ivens Scaff)

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Serão primos pelo azedume
o tamarino e o cajá?
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que mágoa semeou de espinhos
o coração do pequi?
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Ivens Cuiabano Scaff
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Fragmento do poema Perguntaiada,
 do livro "Mil Mangueiras"
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

# Suavíssima (Cecília Meireles)

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Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

No céu de outono, anda um langor final de pluma

Que se desfaz por entre os dedos, vagamente . . .
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Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma . . .
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Fica-se longe, quase morta, como ausente . . .

Sem ter certeza de ninguém . . . de coisa alguma . . .

Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,
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De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma . . .

E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
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Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

A alma das flores, suave e tácita, perfuma

A solitude nebulosa e irreal do ambiente . . .
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Os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .

Tão para lá! . . . No fim da tarde . . . além da bruma . . .
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E silenciosos, como alguém que se acostuma

A caminhar sobre penumbras, mansamente,

Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma . . .
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Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma . . .

E os galos cantam, no crepúsculo dormente . . .
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Cecília Meireles
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quarta-feira, 23 de setembro de 2009

# CERRADO / RAÍZES (Silva Freire)

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—cerrado
arbusto miúdo
o ar no alto do
busto recurvo um grito no
susto da planta dos pés
o ritmo da floração
no coração ancestral

— cerrado
experiência de estar no perto
/ na caixa do peito
na folha do livro

— cerrado
tecido telúrico/
processo/
ingresso na história
e/ou
regresso atávico
no trançado que amassa
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............................................a raça
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....................................................... ..que adelgaça
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.......................................................................................— nos calombos do cerrado
............................................................................................tempo-tropelro ...
............................................................................................curva-cuia (bania)
............................................................................................b-oiando
............................................................................................no liso-a-liso
............................................................................................do
............................................................................................berro
............................................................................................que
............................................................................................afoga
............................................................................................na linha reta do pantanal.
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Silva Freire

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(Fragmento)
Águas de Visitação
Cuiabá / MT

terça-feira, 22 de setembro de 2009

# Primavera (Cecília Meireles)

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A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega...

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Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.
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Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.
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Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.
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Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.
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Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.
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Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.
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Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.
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Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.
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Texto extraído do livro "Cecília Meireles -
Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira -
Rio de Janeiro, 1998, pág. 366


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

# Circus (Adauto Suannes)

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Escreveu o migalheiro Adauto Suannes, autor do livro "Justiça & Caos", na coluna Circus do site Migalhas que, o jurista Pontes de Miranda afirmava que se o intérprete não tiver um mínimo de boa vontade, nenhuma lei será do seu agrado. Para tanto ele transportou esse pensamento para o decepcionante Poder Judiciário, escrevendo há algum tempo:
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"Quando o desmando dos homens
te cobrir de cicatrizes,
pensando as dores, reflete:
ainda temos juízes!
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Autoridades corruptas,
tantos homens infelizes.
Não cede à desesperança:
ainda temos juízes!
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Legalistas, burocratas,
ou venais, quais meretrizes.
Maioria ou minoria ?
Ainda temos juízes!
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Tão moços, mal preparados,
agindo qual aprendizes.
Melhor isso do que nada:
ainda temos juízes !
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Ubi homo, ibi peccata.
Releva dele os deslizes.
Perfeição só cabe em Deus.
Ainda temos juizes !"
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O artigo completo que insere este poema, pode ser lido através deste link - http://www.migalhas.com.br/mig_circus.aspx
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# Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio (Odes de Ricardo Reis)

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Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)
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Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
Se quise'ssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,
Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o o'bolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
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Ricardo Reis
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sexta-feira, 18 de setembro de 2009

# Sarau

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Escritores não nascem prontos.
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E não existem fórmulas que substituam a descoberta pessoal.
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Escrever é transbordar.
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Simone Paulino
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

# Um dia quente no Cerrado (Haicai)

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DEVOLVI O ACENO
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À ÁRVORE DO CERRADO
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QUE ME VIU PASSAR
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Sady Folch
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

# Reflexões

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"I want to know God's thoughts; the rest are details"
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Albert Einstein
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terça-feira, 15 de setembro de 2009

# Coisas que Aprendi Sozinho (Manoel de Barros)


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.Tem 4 teorias de árvore que eu conheço.
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Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
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Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
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Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um poder mais lúbrico de antros.
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Quarta: que há nas árvores avulsas uma assimilação maior de horizontes.
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Manoel de Barros
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

# Se Recordo (Ricardo Reis)

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Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.
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Ricardo Reis
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domingo, 13 de setembro de 2009

# Caminho

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"Quem não sabe por que caminho chegará ao mar,
deve tomar o rio por companheiro."
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Plauto
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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

# Torres

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Onde tudo isso irá parar ?
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Sady Folch

# Um Caminho Desumano

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11 de Setembro de 2001 -
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Data a prova da irracionalidade humana
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E assim caminha a humanidade..
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Sady Folch
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

# UM CAMINHO CHAMADO GABRIEL PERISSÉ

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À Gabriel Perissé,
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alguém que ensinou-me sua maior lição,
que se resumiu na gentileza, no cavalheirismo e na doçura
quando se tratou do respeito à opinião contrária,
sem perder a exposição sincera de seu próprio convencimento.
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Obrigado por esta e pelas demais lições.
Aprendi com elas muito mais
do que ler, pensar e escrever bem,
mas, a ser uma pessoa melhor.
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E é neste reconhecimento que
encontro também a maneira de
pagar minimamente
por algo que me foi tão precioso.
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Sady Folch
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"Pode ser que um dia deixemos de nos falar...
Mas, enquanto houver amizade,
Faremos as pazes de novo.
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Pode ser que um dia o tempo passe...
Mas, se a amizade permanecer,
Um de outro se há-de lembrar.
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Pode ser que um dia nos afastemos...
Mas, se formos amigos de verdade,
A amizade nos reaproximará.
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Pode ser que um dia não mais existamos...
Mas, se ainda sobrar amizade,
Nasceremos de novo, um para o outro.
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Pode ser que um dia tudo acabe...
Mas, com a amizade construiremos tudo novamente,
Cada vez de forma diferente.
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Sendo único e inesquecível cada momento
Que juntos viveremos e nos lembraremos para sempre.
Há duas formas para viver a sua vida:
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Uma é acreditar que não existe milagre.
A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre."
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Albert Einstein
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Poema publicado por Elizabeth,
em email endereçado ao grupo de escritores
formado por
Gabriel Perissé.
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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

# Mundo Pequeno (Manoel de Barros)

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O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco,
osbesouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos.
.Conheço de palma os dementes de rio.
Fui amigo do Bugre Felisdônio, de Ignácio Rayzamae de Rogaciano.
Todos catavam pregos na beira do rio para enfiar no horizonte.
Um dia encontrei Felisdônio comendo papel nas ruas de Corumbá.
Me disse que as coisas que não existem são mais bonitas.
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Manoel de Barros
Fragmentos do poema Mundo Pequeno
Do livro "O Livro das Ignorãças"
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terça-feira, 8 de setembro de 2009

# A Namorada (Manoel de Barros)

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Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.
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Manoel de Barros
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

# Hino da Independência

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Já podeis, da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil.
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Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
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Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil...
Houve mão mais poderosa:
Zombou deles o Brasil.
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Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
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Não temais ímpias falanges,
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.
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Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
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Parabéns, ó brasileiro,
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.
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Brava gente brasileira!
Longe vá... temor servil:
Ou ficar a pátria livre
Ou morrer pelo Brasil.
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Letra de Evaristo da Veiga
Música de D. Pedro I
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domingo, 6 de setembro de 2009

# O Amor

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"E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria."
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Paulo aos Coríntios
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sábado, 5 de setembro de 2009

# Feliz Sábado !

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“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, se há algum louvor, nisso pensai.”
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Paulo de Tarso
aos Filipenses
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

# Sagarana (Guimarães Rosa)

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"Tudo aqui manda pecar e peca – desde a cigana-do-mato e a mucama, cipós libidinosos, de flores poliandras, até os cogumelos cinzentos, de aspirações mui terrenas, e a erótica catuaba, cujas folhas, por mais amarrotadas que sejam, sempre voltam, bruscas, a se retesar."
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João Guimarães Rosa
Sagarana
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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

# Leilão de jardim (Cecília Meireles)

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Quem me compra um jardim com flores?
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borboletas de muitas cores,
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lavadeiras e passarinhos,
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ovos verdes e azuis nos ninhos?
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Quem me compra este caracol?
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Quem me compra um raio de sol?
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Um lagarto entre o muro e a hera,
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uma estátua da Primavera?
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Quem me compra este formigueiro?
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E este sapo, que é jardineiro?
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E a cigarra e a sua canção?
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E o grilinho dentro do chão?
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(Este é meu leilão!)
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Cecília Meireles

# Não pensem que... (Maria José Areal)

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Este poema é de
autoria de Maria José Areal
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Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os dias me açoitam
E as noites me agitam.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque lá fora o mundo se atropela
E agente anda aturdida.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque em Agosto choveu
E o mar estremeceu.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque os olhos do vento
Se esbugalharam contra os meus.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque o Gaio deixou de cantar
E a seara não deu trigo maduro.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque ser amigo demora
E as palavras deixaram de ser sentidas.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque desacreditaram os poetas
E esqueceram as laranjas da madrugada.

Não pensem que vou desistir da vida,
Só porque uma árvore morreu queimada
E a rosa murchou no umbral da tua casa.

Não pensem que vou desistir da vida.
Não pensem que vou desistir da vida.
Sobra-me o espanto e tanto atrevimento.
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Este poema está publicado na página
pertencente a uma pessoa que reputo
um dos maiores ganhos em termos
de aprendizado crítico que tive desde
abril de 2008, quando me aventurei
a formar este espaço.
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Sady Folch
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terça-feira, 1 de setembro de 2009

# Poesia (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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Se todo o ser ao vento abandonamos
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E sem medo nem dó nos destruímos,
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Se morremos em tudo o que sentimos
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E podemos cantar, é porque estamos
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Nus em sangue, embalando a própria dor
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Em frente às madrugadas do amor.
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Quando a manhã brilhar refloriremos
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E a alma possuirá esse esplendor
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Prometido nas formas que perdemos.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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# Marina Silva - Um Novo Olhar

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“O novo olhar, adequado à crescente consciência da humanidade e à altura da crise atual, exige uma equação diferente entre ecologia e economia, uma redefinição de nossa presença no planeta e um cuidado consciente sobre o nosso futuro comum. Para estas coisas a direção atual do PT é cega. Não apenas não vê. É que não tem olhos. O que é pior.”
...
“Efetivamente, estamos numa encruzilhada histórica. A candidatura da Marina Silva não faz mais do que deixá-la evidente. O sistema produtivista-consumista de mercado teima em sobreviver, alegando que somente ele é capaz de resolver o problema da fome e da miséria -
quando, na verdade, é seu causador. Acontece que ele se impôs desde o século XVI como aquilo que a Humanidade produziu de melhor, ajudado pelo iluminismo e a revolução cultural do século XIX, que nos convenceram a todos da validade de seu dogma fundante: somos vocacionados para o progresso sem fim que a ciência, a técnica e o mercado proporcionam. Essa inércia ideológica que continua movendo o mundo se cruza, hoje, com um outro caminho, que é o da consciência planetária. É ainda uma trilha, mas uma trilha que vai em outra direção”.
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Leonardo Boff
Teólogo.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

# Exausto (Adélia Prado)

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Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
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Adélia Prado
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sábado, 22 de agosto de 2009

# Marinheiro Real (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo
ritmado
inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.
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Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

# Pássaro (Cecília Meireles)

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Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.
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Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.
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Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.
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Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.
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Cecília Meireles

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

# Alquimia da Dor (Charles Baudelaire)

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Um te ilumina com ardor,
O outro te enluta, Natura!
O que diz a um: Sepultura!
Ao outro diz: Vida e esplendor!
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Hermes que oculto me conquistas
E para sempre me intimidas,
Tu me fazes igual a Midas,
O mais triste dos alquimistas;
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Por ti do ouro o ferro improviso
E torno inferno o paraíso;
Roubando às nuvens seu sudário,
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Um corpo querido amortalho,
E às margens do celeste estuário
Grandes sarcófagos entalho.
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Charles Baudelaire
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terça-feira, 18 de agosto de 2009

# Tomara (Vinícius de Moraes)

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Tomara
Que você volte depressa
Que você não se despeça
Nunca mais do meu carinho
E chore, se arrependa
E pense muito
Que é melhor se sofrer junto
Que viver feliz sozinho
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Tomara
Que a tristeza te convença
Que a saudade não compensa
E que a ausência não dá paz
E o verdadeiro amor de quem se ama
Tece a mesma antiga trama
Que não se desfaz
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E a coisa mais divina
Que há no mundo
É viver cada segundo
Como nunca mais...
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Vinícius de Moraes
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

# Carlos Drummond de Andrade

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Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
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Carlos Drummond de Andrade
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# Mário Quintana

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E um dia os homens descobrirão
que esses discos voadores estavam apenas
estudando a vidas dos insetos...
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Mário Quintana
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

# Noites de Sonhos (Willian Shakespeare)

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Há quem diga que todas as noites são de sonhos!!
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão......
No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos.
Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares,
em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.
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William Shakespeare

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

# Amoras (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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...O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009

# Abdicação (Fernando Pessoa)

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Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
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Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços
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Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.
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Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
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Fernando Pessoa
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(Cancioneiro)
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segunda-feira, 27 de julho de 2009

# A Mulher Madura (Affonso Romano de Sant'Anna)

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Pour Aline Folch
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O rosto da mulher madura entrou na moldura dos meus olhos. De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a antevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso e esculpido como o de uma atriz, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.
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Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muitos barulhos, joga muita água para os lados. Enfim, desborda. A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo de repouso da garça sobre o lago.
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Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo. A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs. A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.
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A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de Setembro e Abril. O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.
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Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza. Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que amaturidade é também algo que o outro nos confere, completamente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador. Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, de um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.
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A mulher madura está pronta para algo definitivo. Merece, por exemplo, sentar-se naquela Praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidade. A mulher madura é um ser luminoso e repousante às 4 horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados de gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes. Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar.
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Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.
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Affonso Romano de Sant'anna
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

# O teu riso (Pablo Neruda)

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À Aline com amor
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Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
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Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce
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A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
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Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
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À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
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Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
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Pablo Neruda
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segunda-feira, 20 de julho de 2009

# Fernando Pessoa - A chuva desce a ladeira

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A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.
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Há muitos que contam a dor e o pranto
De o amor os não qu'rer...
Mas eu, que também não os tenho, o que canto
É outra coisa qualquer.
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Fernando Pessoa
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domingo, 19 de julho de 2009

# Alberto Caeiro - A água chia no púcaro que elevo à boca

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A água chia no púcaro que elevo à boca.
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la.
Sorrio. O som é só um som de chiar.
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta.
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Alberto Caeiro.
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
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"Poemas Inconjuntos".
Poemas Completos de Alberto Caeiro.
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sexta-feira, 17 de julho de 2009

# Ricardo Reis - A Abelha

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A abelha que, voando, freme sobre
A colorida flor, e pousa, quase
Sem diferença dela
À vista que não olha,
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Não mudou desde Cecrops. Só quem vive
Uma vida com ser que se conhece
Envelhece, distinto
Da espécie de que vive.
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Ela é a mesma que outra que não ela.
Só nós — ó tempo, ó alma, ó vida, ó morte! —
Mortalmente compramos
Ter mais vida que a vida.
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Ricardo Reis
(Heterônimo de Fernando Pessoa)
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quarta-feira, 8 de julho de 2009

# Liberdade

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Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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terça-feira, 7 de julho de 2009

# Cantar (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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Tão longo caminho
E todas as portas
Tão longo o caminho
Sua sombra errante
Sob o sol a pino
A água de exílio
Por estradas brancas
Quanto Passo andado
País ocupado
Num quarto fechado
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As portas se fecham
Fecham-se janelas
Os gestos se escondem
Ninguém lhe responde
Solidão vindima
E não querem vê-lo
Encontra silêncio
Que em sombra tornados
Naquela cidade
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Quanto passo andado
Encontrou fechadas
Como vai sozinho
Desenha as paredes
Sob as luas verdes
É brilhante e fria
Ou por negras ruas
Por amor da terra
Onde o medo impera
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Os olhos se fecham
As bocas se calam
Quando ele pergunta
Só insultos colhe
O rosto lhe viram
Seu longo combate
Silêncio daqueles
Em monstros se tornam
Tão poucos os homens
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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segunda-feira, 6 de julho de 2009

# A frase do ano !




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Essa pergunta foi a vencedora em um congresso sobre vida sustentável.


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"Todo mundo 'pensando' em deixar um planeta melhor para nossos filhos... Quando é que 'pensarão' em deixar filhos melhores para o nosso planeta?"
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Uma criança que aprende o respeito e a honra dentro de casa e recebe o exemplo vindo de seus pais, torna-se um adulto comprometido em todos os aspectos, inclusive em respeitar o planeta aonde vive...


Para pensarmos um pouco.


Sady Folch

# Quando eu partir

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À memória de mestre Goffredo
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Quando eu partir,
que seja num dia alegre,
talvez numa quinta-feira,
melhor se for numa terça,
quem sabe no Carnaval.
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Quando eu partir,
que a noite seja de lua,
crescente, de preferência,
com nuvenzinhas vagando,
quais aves do arrebol.
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Quando eu partir,
que as flores se abram todas
mesmo em outono ou inverno
que abrirem-se na primavera
é natural que ocorresse.
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Quando eu partir,
que riam meus inimigos.
Eu vou querer que eles chorem?
Vou esperar que eles orem
por quem lhes fez tanto mal?
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Quando eu partir,
num mês de março qualquer,
que seja detardezinha,
sem o mais mínimo azáfama,
tal qual sempre morre o sol.
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Quando eu chegar,
Um coro de anjos interromperá seu ensaio.
Um deles, mais atrevido,
nariz franzido, por certo
indagará: "Quem é esse?"
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Publicado no site Migalhas -
Circus em 06 de Julho de 2009
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

# Porque (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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quarta-feira, 1 de julho de 2009

# Goffredo Telles Júnior

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Foi no final do ano passado que tive a satisfação em conhecer o Professor Goffredo Telles Júnior, e a honra de ter tido a minha primeira obra escrita, lida por ele. Isto aconteceu próximo ao natal, quando numa tarde daquelas recebi o telefonema em minha casa. Era o Professor Goffredo. Com a voz rouca, denunciando a idade avançada. 94 anos de idade. Mais de sete décadas dedicadas ao pensamento do Direito e da Ética.
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Devido a sua observação quanto ao que havia lido, sugerindo-me a publicação da então monografia de pós graduação em Direito Constitucional Ambiental, decidi enviar para o editor Juarez de Oliveira. O livro está passando por uma revisão - tanto ortográfica quanto da atualização do texto (foi escrito em 2006). Deve ter sua publicação tirada em 2010. O assunto tratado é o da ética empreendida pela seara biotecnológica.
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Aguardo este instante que há de chegar, em que, com grande justiça, posto que a tese foi criada com respaldo na obra do Professor Goffredo - A Ética e seus valores - dedico desde já ao inesquecível mestre das Arcadas.
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O Largo de São Francisco ficou. E em suas paredes e fundações, a obra e o pensamento de Goffredo Telles Júnior. Ressoando os valores da Disciplina da Convivência Humana, a que ele costumava se referir quando falava da Ética. Termo este acrescentado por ele no livro que me presenteou autografado.
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Professor Telles, amigo recente, sentirei saudades. Ainda mais, guardarei para sempre na memória o seu telefonema atencioso, com palavras de incentivo e aprovação do pensamento desenvolvido em minha obra. Obrigado. Descanse em paz. Falaremos do amigo até quando ainda existir o ar que respiramos.
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Sady Folch

# Goffredo Telles Júnior (Luto)

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GOFFREDO TELLES JÚNIOR
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27 de Junho de 2009
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sexta-feira, 26 de junho de 2009

# Anos 60

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44 anos bem vividos
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sábado, 13 de junho de 2009

# Outono da alma

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Dias frios e noites geladas. Assim tem sido a rotina dos novos tempos nestes fins de outono. Rotina de dias frios e noites geladas. De pessoas em extrato de ser-parecido-humano. Gente do tempo do final de outono. Não o outono das folhas caídas, amareladas pela renovação, mas, o outono das vidas levadas ao vento, na correnteza da enxurrada dos valores.
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Gente aglomerada às dezenas num espaço de poucos metros. Rostos desfigurados. Vidas em desafio constante. Manterem-se vivos. Juntos. Alucinados no ritual que lhes dá sentido. De rítmo frenético. Cada qual tendo a sua história de vida submetida à estória que acreditam contar. Ledo engano. É apenas a própria história particular de todos nós contando estórias que queremos ouvir.
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Seus contos de vida, dos que se aproximam para receberem um socorro, são os mais diversos possíveis. Alguns ávidos por os revelarem a seus ouvintes. Outros que nem se apercebem da presença de mais alguns entre a dança de olhos afixionados naquele lugar.
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São Paulo. Rua Aurora. Rua Vitória. 13 de junho. Nominações que poderiam corresponder suas virtudes aos que nesse lugar se instalam. Contudo, não é a realidade.
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Gente de todo tipo. Crianças com 12 ou 13 anos de idade. Ao seu lado homens de 40, 50, ou atemporais diante da perda que se completa ali todos os dias. Dias frios. Homens e mulheres. Tipos físicos dos mais diversos. Sotaques que preencheriam Babilônia, não fosse pela degradação instaurada. Os que passam por aquele lugar o fazem por necessidade. Ninguém os deseja. Se alguns não forem ao seu encontro, são pessoas esquecidas. No frio dos dias. De dias frios e noites geladas.
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Nesse lugar, no centro de São Paulo, ocorreu a oportunidade de conhecer Carlos Renato, que falou de sua mãe, de sua ex-esposa e de seus dois filhos, Pedro e Vítor, os quais ele crê apenas o mais velho sabe de seus dias...dos dias e noites em que ele passa transitando entre a Aurora para a Vitória, ainda que acompanhado de trevas e derrota.
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Muita água, lanches e sucos foram distribuídos entre os que se aproximaram. Outros permaneceram a poucos metros, e ainda assim distantes ano-luz de nós, esquecidos e esquecendo os dias frios e noites geladas.
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Das dezenas de copos com água que servi, uma coisa foi bastante marcante. Perceber as mãos que seguravam o copo. Diferentes, maltratadas, negras e brancas, hábeis no trato do cachimbo que leva à loucura e à fantasia desorientada. Craks que poderiam ser craques, mas, nem se encontram em jogo. Em especial num mundo moderno, de liberdades e conquistas sociais. Mas quando o assunto é mexer na podridão...fica a justificativa de que está fazendo muito frio para ter que tirar as luvas...e o tapa de pelica dói muito mais na cara dessas qualidades-de-pessoas, entregues aos dias frios e às noites geladas.
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Sady Folch
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sexta-feira, 5 de junho de 2009

# 05 de Junho - Dia do Meio Ambiente

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Hoje é o dia do Meio Ambiente !
E amanhã ?
Chegará o ambiente ao meio dia ?
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Sady Folch
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terça-feira, 2 de junho de 2009

# Liberdade (Fernando Pessoa)

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Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não fazer !
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Ler é maçada,
Estudar é nada.
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Sol doira
Sem literatura
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
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E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como o tempo não tem pressa...
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Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.
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Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D.Sebastião,
Quer venha ou não !
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Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
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Mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...
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Fernando Pessoa
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terça-feira, 5 de maio de 2009

# Ah...um Soneto (Álvaro de Campos)

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Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco
em casa a passear, a passear ...

No movimento (eu mesmo me desloco

nesta cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços.

Há saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava...
e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? ...
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Álvaro de Campos
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

# Movimento Livro nas Mãos

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Ontem à noite, por volta das sete horas eu estava dentro do metrô, a caminho da última aula que tivemos no Curso de Formação de Escritores, na ESDC - SP; de repente me peguei espiando as páginas de um livro aberto, sustentado pelas mãos da pessoa à minha frente.
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Lembrei-me do Movimento Livro nas Mãos, nascido dentro do curso e idealizado pela jornalista Cristiane Rogério, que transita com responsabilidade dentro das edições infantis.
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Logo que o trem alcançou o destino determinado por mim, o passado de um ano atrás até o dia de hoje, passou por meus olhos em alguns minutos. Era a última aula teórica daquele ano todo. Duas professoras e cinco professores. Todos trazendo o fino da teoria dentro de suas áreas de trabalho e conhecimento.
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Mas, o meu tempo era agora, e tinha que tentar saber qual era o título do livro. Algum contorcionismo depois devido à lotação do trem, e a Estação Marechal Deodoro estava às portas; achei mais fácil bater no ombro da leitora e perguntar. Com um sorriso de satisfação mostrou-me a capa que estampava a revelação - O MUNDO SEM FIM, de Ken Follett.
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Estava desvendado o mistério do livro nas mãos, ao menos para a postagem que tem em seu objetivo retratar um instante rápido do dia a dia, em que o livro nas mãos seja a evidência. Muitas vezes esses momentos passam desapercebidos diante de nossos olhos, mas, quando nos chama a atenção também cria um misto de alegria e curiosidade.
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Que o Movimento Livro nas Mãos seja alimentado ao longo de anos, e acima de tudo, possa levar ao estímulo da leitura, do pensamento e do conhecimento, por entres as páginas e palavras que compõem esse maravilhoso mundo da Literatura.
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Parabéns a todos os integrantes do Curso de Formação de Escritores, pioneiros da jornada no dizer da escritora Márcia Olivieri, capitaneados pelo educador Gabriel Perissé.
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terça-feira, 28 de abril de 2009

# Exílio (Sophia de Mello Breyner Andresen)

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Quando a pátria que temos não a temos
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Perdida por silêncio e por renúncia
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Até a voz do mar se torna exílio
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E a luz que nos rodeia é como grades.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

# Cidadania

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Ao pé da Sé, adormecem Zé,
Seu Zé, Totó, Mariano, Canjica…
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Tosse Seu Zé, rosna o Totó,
Se ajeita Canjica e treme Seu Zé.
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Que frio!
Um frio de um vento vadio!
Vento de morte, vento ululante
Que leva ao léu as folhas do Folha
E acorda Zé, Totó, e Canjica
De frio.
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(Poema de autoria de Wagner Ortiz
- íntegra no link -
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sexta-feira, 24 de abril de 2009

# RUI BARBOSA

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"De tanto ver triunfar as nulidades,
De tanto ver prosperar a desonra,
De tanto ver crescer a injustiça,
De tanto ver agigantarem-se os poderes
Nas mãos dos maus,
O homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
A ter vergonha de ser honesto".
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Rui Barbosa
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quinta-feira, 23 de abril de 2009

# Poderes da República

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"Até quando defendereis os injustos,
e tomareis partido ao lado dos ímpios?
Defendei a causa do fraco...
...protegei o direito do pobre e do oprimido....
(os juízes) eles nada sabem, e nada entendem.
Andam em trevas.
Todavia, morrereis como homens;
caireis como qualquer dos príncipes."
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(SALMO 82)
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Outro dia falei do descalabro por parte do Presidente da República, o Inácio, que resolveu fazer vista grossa para com a legislação ambiental em vigor, sem citar a própria ofensa à Constituição Federal, enviando ao Congresso uma Medida Provisória (Instrumento criado para medidas urgentes) que permite a duplicação de estradas sem a necessidade de Estudos de Impacto Ambiental. Como se a natureza já degradada fosse um detalhe.
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E quanto a este mesmo Presidente, lembramos que uns meses atrás enviou para as masmorras cubanas, atletas que lhe pediram asilo político; de certo para fazer uma média com sua antiga ideologia que resiste na ilha mediante um misto de populismo e ditadura. No entanto, como ele não pode deixar de exercitar pesos e medidas diferentes, decide abrigar o tal Batiste, acusado de homicídios na terra da Cosa Nostra.
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Tempos atrás testemunhamos no Legislativo um deputado denunciante (Jefferson) ser o único a perder seu mandato, mesmo diante de todas as provas e evidências contra a maioria do Congresso Nacional, em projeto arquitetado pelo próprio Palácio do Planalto. Concordo que o denunciante só abriu a boca porque a sua parte não foi conforme o prometido. Magoou e entregou o resto.
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Hoje são eles novamente (Legislativo) que compõem a página dos escândalos, quando se descobre que está acontecendo a farra das passagens aéreas. E o Senador Michel Temer vem à público dizer que ele mesmo pratica tais atos, e que isso já vem de décadas. Como se o Direito Administrativo não tivesse regras claras entre os seus princípios.
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Até o velho Gabeira entrou nessa. O que é isso companheiro?!!
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O que será do futuro de nosso país ? já cantou João Alexandre
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Dos Poderes da República...restaria a letra morta, não fossem os trabalhos árduos empreendidos pelo Poder Judiciário.
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Sady Folch
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quarta-feira, 22 de abril de 2009

# Brasil Redescoberto

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22 de Abril de 1500...nesse dia foi oficialmente descoberto o Brasil...imagino quantos outros navegantes aportaram pela Terra Brasilis antes do comandante Cabral.
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Um lugar com habitantes que segundo Caminha - "Eles não lavram nem criam. Nem há aqui boi ou vaca, cabra, ovelha ou galinha, ou qualquer outro animal que esteja acostumado ao viver do homem. E não comem senão deste inhame, de que aqui há muito, e dessas sementes e frutos que a terra e as árvores de si deitam. E com isto andam tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos."
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Descobriram não apenas uma nova terra, mas, com ela, ensinamentos como este reproduzido acima. Que os índios eram mais fortes do que o homem civilizado, comendo apenas o que a terra lhe fornecia. Respeitando-a acima de tudo.
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E o que fizeram os homens ditos civilizados deste então? Abriram a Mata Atlântica sem qualquer escrúpulo, assorearam os rios, poluiram o que puderam e tudo em nome do desenvolvimento.
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Até que, em exatos quatrocentos anos depois, surge uma nova descoberta. Passaram os habitantes desse país, em 1990, a comemorar nesse dia, não apenas o descobrimento do Brasil, mas, o Dia Planeta Terra, juntamente com outros paises que aderiram ao movimento nascido em 22 de Abril de 1970, pelas mãos do Senador norte-americano Gaylord Nelson, na época estudante de Harvard, com intuito de contestar a poluição produzida pelo homem no planeta.
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Estamos vivendo hoje descobertas quanto às nossas verdadeiras necessidades frente ao ambiente que nos abriga, e com elas, novos estilos de vida, levando ao homem e a natureza a conviverem pacificamente, como os índios na época do descobrimento.
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Sady Folch

terça-feira, 21 de abril de 2009

# Meios Humanos

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Em pleno feriado, as coisas estão na mesma...hábitos de um país antigo. Feriado na terça ?...
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Fico pensando porque os congressistas não aprovam uma lei (já comentada na mídia) em que esses feriados, passem a ser gozados na segunda ou na sexta...coisas de uma gente esquisita o retardamento desta iniciativa.
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Tão esquisita que o que se vê da parte deles em termos de iniciativa é o desfazimento do que já foi conquistado...tomo como exemplo a área ambiental...pequenas hidroelétricas, rodovias a serem duplicadas, passam a ter legislação que os desobriga do EIA-RIMA; Isso depois de termos alcançado uma legislação ambiental moderna.
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Devem estar tomando por base que estes importantes instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente sejam um mero detalhe. Para alguns, um estorvo ao desenvolvimento. Estes mais sinceros (ou cínicos) que os primeiros (criados na ignorância).
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Engraçado nisso tudo, para não dizer dramático (do lado dos impactos), é que essa mesma gente, desse mesmo país, foi um dia os que estavam em pé, aos brados (discurso político), fazendo oposição ao governo vigente...
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Coisas de um meio ambiente...humano.
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PS > Aguardamos um pouco mais tranquilos, sabendo das atuações do Ministério Público (que quase foi também, neste governo, alvo de movimento para que perdesse os poderes que recebeu na Constituição Federal..."prá que tanto poder assim ?" disseram eles - Coisas de um governo ignorante e demagogo) ...
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E assim caminha a humanidade...
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Sady Folch
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domingo, 19 de abril de 2009

# Dia de Indio

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(Tupi or not Tupi;
sete vezes por semana)
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TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TODO DIA ERA DIA DE INDIO
TUPI OR NOT TUPI
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Sady Folch
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terça-feira, 14 de abril de 2009

# Enformigado Coração

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(E a Lavoura frutifica mais forte ainda)


Cantam os sons das formigas
Que devoram o coração antigo
E com ele o que restava do inseto morto
E sem coração
Que me destruiu a lavoura
Mais do que o fariam as formigas
Mais do que fizeram os ímpios.

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Sady Folch
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quinta-feira, 9 de abril de 2009

# O Mato

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Hoje completa um ano que esta página foi criada. Chamou-se inicialmente Desassossego, passando por Scriptor in Desassossego, chegando ao Caminho do Escritor. Foram experiências incríveis, aprendizados difíceis, e críticas bastante construtivas por parte dos leitores.
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Quando iniciei aqui, escrevi sobre Cuiabá e a natureza que a circunda, que estavam sendo alvo de desmatamento e poluição. Em especial ao rio que corta a cidade.
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Pouca coisa mudou em relação ao respeito à natureza. A vida ainda tem vencido essa insanidade.
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A minha postagem para comemorar este ano, vem da inspiração de um matogrossense, Manoel de Barros, e fala simplesmente do personagem - Mato.
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Ser mato é o que me consta ser
Seco ou frondoso seja na estação que encontre
Mato é o que me consta ser a discorrer.
Às vezes eu sou o campo limpo
Aparado na pisada dos cascos.
Às vezes cubro a terra
E me faço denso.
Sou o lugar das cobras
E dos espinhos,
Lugar de pretexto.
Sou o cobertor da terra
E a raiz que a fortalece.
Por ser mato sou referência
Sou preferência de moradia.
Sou amparo do orvalho
Que o chão reclama para si.
Sou para uma gente um conjunto
Para outros sou eunuco,
Só sirvo arrancado
A dar lugar em terra,
Que sozinho e desterrado,
Aguarda o tempo de ser queimado.
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Sady Folch
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quarta-feira, 8 de abril de 2009

# A Manoel de Barros

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(Uma lembrança ao curso de
que comemora um ano.)
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(A Manoel de Barros)
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Seu Manoel um dia me disse de uma história de importâncias. Contou-me que uma tal rã lá das bandas do rio, tinha pelas águas importância menor que ela mesma. Como pode ser isso se foi na dita água que cresceu girino? Parece que era coisa que tinha aprendido com os homens. Foi e foi o dia a fora, contando dos causos das importâncias, até que atingiu à hora da tarde, e lá pelas ave-maria, na boquinha da noite, o causo ganhou certa verossimilhança.
Seu Manoel, que já vinha a pouco se dispersando da conversa, em resposta às rãs que ressoavam nos poros da noite, pediu-me licença e seguiu em direção a margem do rio. Chegou e se desnudou da roupa de linho dos coronéis. Esta que muito menos importância tinha. Saltou num pulo de mais de metro e por pouco não atingiu o meio do rio, e soltando as pernas para trás com a firmeza que têm os batráquios, sumiu na água limpa e fria da noite, esquiando-se de um lado a outro.
E por vezes em mergulho longo, estendia-se até que buscasse termo. Vez por outra voltava a sua cabeça gorda à superfície, respirando em busca também do ar que saía dos pulmões em rã. Deste instante em diante as madeiras e as pedras foram sendo ungidas, e surgiram tantas rãs que mal se podia contar o tamanho delas.
Soube-se mais tarde, por um homem que nem mesmo morava naquelas bandas, que um grande sapo centenário naquele rio contava estórias de homens, estórias de homens que falavam de rãs, de rãs que se apaixonavam por homens, e até de rãs que não davam importância ao rio por causa do homem.
Não se sabe bem por que, mas, uma coisa se fez certa naquelas paragens.
Seu Manoel depois de nadar a noite inteira no rio, nunca mais que voltou pra modo de contar as estórias. Hoje já vou ai pra casa dos cento e dois anos de idade, ainda ouvindo as rãs falando do dia em que o homem doutor se batraquiou. E toda a noite, para aqueles que sabem ouvir, elas contam em cantos esta estória aos homens, para que nunca deixem de dar importância ao rio.
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Sady Folch
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# 290 anos de Cuiabá

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08 de ABRIL de 1719
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quinta-feira, 2 de abril de 2009

# GABO (Marcado e anotado)

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MARQUES,
GABRIEL
GARCIA
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Sady Folch
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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

# Agentes Ambientais

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Este dia, 06 de Fevereiro, os homens tratam de homenagear aos agentes ambientais. .

Não são estes apenas os que têm uma função administrativa nas fundações e secretarias do meio ambiente, ou mesmo os que se dispõem a trabalhar diariamente em alguma atividade que desperte a consciência ambiental de outras pessoas, mas, todos aqueles que diante de uma postura altruísta, praticam a escolha de se absterem do consumo desenfreado, em especial do que seja desnecessário para se viver, a fim de beneficiar ao planeta, a qualidade de vida, e os recursos naturais.

Desta forma estaremos resquardando não só a integridade do nosso meio, mas, acima de tudo, torna-se em um maneira de pensar na vida daqueles que nada têm ou possuem, devido a uma atitude capitalista que vê apenas o lucro, valorizando somente aqueles que podem ser consumidores em potencial.

É preciso escolher bem aquilo que compramos e consumimos, assim como dar um destino correto aos objetos descartados e descartáveis. Passar ao próximo as lições simples de consciência ambiental, é praticar o cuidado que devemos a nós mesmos.

Foi-se o tempo em que não se acreditava que um passarinho tentando apagar um fogo com um pouco de água no seu bico, era apenas um conto, uma estória, donde inclusive, este herói era ridicularizado pelos que o presenciavam.

Que cada um de nós seja homenageado no dia de hoje, assim como no de amanhã, e todos os outros no futuro, ainda que não estejamos mais andando sobre a terra, mas, que ao menos possamos ter deixado um bom exemplo do que se pode fazer pelo bem de todos nós e do planeta.

Parabéns a todos os homens que conservam, ensinam, a conciência ambiental, assim como àqueles que dela estão procurando tirar ótimas lições, entendendo sua importância, e assim modificando seus comportamentos egoístas.

SADY FOLCH
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Foto de Cuiabá - MT,
de autoria de Raimundo Reis.
(clique na foto p/ acessar
o sítio do fotógrafo)
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

# ANO NOVO

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2009...
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Esta data está correta ?
Informe-se e verá que tudo não passa de conceitos...
Par
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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

# ESTRELAS ETERNAS

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Das estrelas que se me apresentam,
Aos olhos me encantam os tais brilhos,
No instante sereno que resta,
Na noite em que minh’alma estribilho,

E entre a dança dos astros noturnos,
A mão percorre os dedos no espaço,
Formando um gesto que se eterniza,
Enquanto alcanço os sonhos que faço,

E meu corpo deitado na relva,
Banhado em orvalhos que cintilam,
Traduz em mim o som do universo,
Nas caldas que a um piano inspiram,

E na orquestra dos ares infindos,
Ressoa majestoso o instante,
Da estrela que mais próximo habita,
Na aurora de meus olhos-semblante.
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SADY FOLCH
Ofertado a Olga, por ter cumprido o desafio com louvor.
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

# PAUSA PARA LEITURA

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quarta-feira, 27 de agosto de 2008

# LUNA CRESCENTE

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.................................................Luna que nasce
......................................e surpreende,
................ deixa-me um sorriso,
........... deste corpo de luz;
Minha alegria é forte,
.............nos lábios, o teu retrato,
......................meus olhos se levantam,
.....................................reflexos de um pulsar,
...........................................que nos rodeia e cuida.
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SADY FOLCH
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quinta-feira, 17 de julho de 2008

# Há muito a ser feito...

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(Exercício proposto pela oficina de férias. Visão do narrador sobre o texto SORAIA, de autoria da Cláudia Finamore do Blog http://desabafosereflexoes.zip.net/)

Acordando daquele sonho esquisito, Soraia tomou a garrafa d’água que estava ao lado da cama e bebeu aos goles. Ainda atônita com as imagens daquele sonho que mais parecia ser a realidade, olhou para a janela e percebeu que a mesma estava aberta. Pensou. Deve ser daí que surgiu a sensação do vento que invadiu o quarto. Mas, e quanto aos homens que vira no corredor? Sentia o perfume das rosas vermelhas, mas, lembrou-se de apenas tê-las visto no sonho, sem sentir o odor. Percorreu com os olhos toda a extensão do quarto, mas, não as encontrou. Dispôs-se a levantar-se, pois a manhã já ia longe. Ao colocar seus pés no chão, sentiu que pisara em algo que não o tapete do quarto. Era um livro misterioso e de capa branca, sem título ou desenhos, e que tinha recebido de um estranho na noite de ontem, que lhe entregara apenas pedindo que o lesse, pois ele tinha sido feito para ela. Lembrou-se que antes mesmo que ela pudesse dizer algo, olhou para frente e o homem misterioso havia sumido na noite assim como aparecera. Ela chega e casa e lê freneticamente aquelas páginas. Era a história de uma linda mulher que restaura a sua vida, dando a volta por cima dos últimos acontecimentos. E havia sim muito a ser feito. E ela o fez. Escreveu um livro e mudou sua vida. E os homens de branco nunca mais voltaram a povoar seus sonhos. Assim como os de Soraia.

SADY FOLCH
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segunda-feira, 14 de julho de 2008

# Le 14 Juillet

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segunda-feira, 30 de junho de 2008

# Indícius de Imortaes


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Este grupo foi denominado Indícius de Imortaes!
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CURSO DE FORMAÇÃO DE ESCRITORES
ESDC - SP
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Coordenação de Gabriel Perissé
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Homenagem do nosso Primeiro Sarau Literário.
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quarta-feira, 28 de maio de 2008

# MARCAS DE UM NOVO TEMPO (3)

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No momento imediato ao clamor abafado pelas dores iniciais que davam por certo a chegada da menina Elvira, surgindo intercalado entre gemidos provenientes dos aposentos da jovem que se recolhera horas antes, seu Manoelito se levanta instintivamente do pequeno banco de madeira próximo à porta de entrada, e antes que pudesse dar o primeiro passo em direção ao interior da casa, dois dos seus sentidos lhe dão conta da predominância da umidade do ar, só não percebida antes fortemente, devido a sua aproximação da fogueira. Era o ribeirão que emprestava sua essência a se misturar ao cheiro da relva, em meio ao frio daquela noite. E sob a luz da primeira lua cheia, seus olhos agora apontados em direção ao vale sob nova perspectiva, percebem as flores cuidadosamente espalhadas à frente das casas. Sente nestes poucos segundos o gosto das ervas em chá que ainda lhe desce aquecido pela garganta. Ato contínuo se abaixa para repor a cuia ao suporte que lhe dava apoio, encontrado ao chão próximo à banqueta, e voltando-se para a porta, abre-a completamente e adentra a casa. Já em seu interior, atravessa o pequeno cômodo que era servido por uma mesa rústica com quatro cadeiras, tendo ao fundo um fogão de lenha onde uma panela com guizado ainda se mantinha quente devido à lenha que restava a queimar. O aroma da comida impregnava um pouco o ambiente. O que lhe fez atento também à grande panela com água que se mantinha morna pela proximidade do fogo, e as toalhas, que só percebeu ao voltar os olhos por sobre a mesa que acabara de passar. Os objetos haviam sido prudentemente solicitados pela nova senhorinha que realizava os partos, para que estivessem à mão caso a criança viesse a nascer naqueles dias. Sentira um alívio pela prudência, mas, o sentimento do desconhecido e da surpresa lhe tomou a alma, ainda que soubesse que naquele quarto a frente iria encontrar apenas a jovem parturiente, e seu bebê que as formas anunciavam.

Ao abrir a porta do aposento, fitou a jovem nos olhos, ouvindo-a pronunciar mais uma vez o seu nome em pedido de ajuda. Seu rosto ainda era de uma menina. Pensou. Uma menina nascendo de outra. Lembro-me do dia em que ela nasceu. Era uma noite fria como esta. A única diferença era que sua mãe, a bisavó de Elvira que era a responsável pelos partos daquela região, assim como os habitantes do vilarejo, todos se encontravam em suas casas. Ele estava a sós com aquelas duas criaturas e pouco sabia do que deveria ser feito. Apenas a senhorinha podia ser encontrada a algumas casas de distância. Mas havia caído enferma na noite anterior. Viu-se mais uma vez em sua vida diante do nascimento, e sua mente se voltou ao ribeirão, como se dali tomasse a força e a sabedoria que precisasse para realizar o feito que estava diante de suas mãos. Mas sabia que não se tratava apenas de retirar pedras que impediam o jorrar de uma fonte, ou ainda, ajudar no aprofundamento de uns poucos sulcos que se formavam naturalmente. Sem tirar os olhos da menina perguntou a ela se sentia de fato que aquele fosse o seu momento. Ela de pronto respondeu-lhe que sim, apertando-lhe a mão que há esse instante já segurava fortemente, pelo que agachado, a estendeu como forma de dar-lhe a primeira segurança de que acreditava a mesma necessitasse. Pediu-lhe que tivesse um pouco de calma, pois iria solicitar a ajuda da senhorinha que se prontificara atendê-la, ainda que acamada. Nesse minuto sentiu-se abalado pelo grito que dera a moça, sem nem mesmo conseguir responder a ele que não daria tempo. Foi então que percebeu já estarem os lençóis molhados, anunciando ao parto que estava em curso. Fechou os olhos. Respirou profundamente, e toda a coragem que precisava para encarar o inusitado, lhe verteu naquele instante para realizar o feito. Ao momento em que se levantou para melhor verificar o que deveria fazer para a recepção da criança a ser amparada, se lembrou da necessidade da água que estava ao fogo e das toalhas sobre a mesa.

Nesse instante, deixa a jovem mãe sozinha no quarto, e ao voltar à cozinha encontra a senhorinha entrando pela porta da casa, o que lhe trouxe grande alívio denunciado por aqueles olhos afoitos. Esta de imediato tratou de lhe apresentar a certeza de que tudo iria ser resolvido, e falou.

- Seu Manoelito...acalme-se. Não há mais com que se preocupar. Ouvi o grito da menina e estou aqui para ajudar. Apenas ajunte mais um pouco de lenha ao fogão, e traga-me aos poucos os bocados de água quente que retirar da panela.

Eis que de pronto seu Manoelito respirava tão aliviado, que a lida que lhe fôra agora anunciada, lhe ocorreu realizar da maneira mais perfeita possível, como uma transferência da energia que o consumira segundos antes. Não que isso fosse diverso à sua maneira de ser. Aquele velho homem guardava notável vitalidade. E ainda que seu modo de vida fosse simples, comendo apenas do que plantasse ou retirasse da terra, podia andar aquela região toda sem demonstrar nenhum cansaço aparente. E mesmo diante daquela situação, em que não a força, mas a sabedoria e a observação natural é que ditassem as regras do procedimento, era bastante provável que obtivesse sucesso no auxílio que lhe fosse solicitado. A não ser por alguma complicação que viesse a ocorrer. Rapidamente fez uma busca próxima ao fogão e percebeu não haver mais o que queimar. Foi então que saiu aos fundos da casa e encontrando o amontoado de lenha que repousava junto à parede, juntou um pequeno feixe que acreditava ser o suficiente, e retornou abastecendo o fogo ao mesmo tempo em que alcançava um pequeno vasilhame que estava à mão, a fim de colher a água que verteria a uma panela menor que a que estava ao fogo. Em meio aos gemidos de dor que reiniciaram, enquanto aguardava o aumento da chama, sua mente começou a divagar em pensamentos de outrora.

Seu Manoelito conhecia a vontade dos pais da criança para a escolha dos nomes. Elvira, caso fosse uma fêmea, e Afonso, viesse a ser varão. A acolha do nome feminino nascera no íntimo do coração de sua mãe, na ocasião em que sabendo da gravidez, comunicou-a ao seu amante, que tomado de grande alegria passou a escolha dos nomes possíveis, malgrado a tristeza que lhe assolava pela impossibilidade em revelar os segredos de alcova. O nome Elvira foi sugerido porque, contava a história, teria sido uma filha que apesar de bastarda, fôra mui amada por seu pai o rei Afonso VI de Leão e Castela, e se tornara uma mulher com doçura singular na corte espanhola do fim do século XI e começo do século XII. Sua irmã Tereza de Leão, também filha bastarda de Afonso VI com a nobre castelhana Ximena Moniz, foi mãe de Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, o que fazia o nome masculino já decidido, não apenas para homenagear o nome Afonso que denominava aos reis, e em especial ao primeiro rei de Portugal, já que era o pai da que estava por nascer, descendente de portugueses, mas, sobretudo, pela lembrança ao gesto de nobreza do rei Afonso VI, que amara suas filhas sobremaneira ainda que fossem filhas de uma união que não se poderia reconhecer.

Neste instante sua divagação é desperta pelo grito da parteira que se via apressada pela necessidade da água quente. Ele logo a providenciara aos bocados, conforme lhe fora instruído. Passados alguns minutos que mais parecia uma eternidade para o velho homem, este se apressou a aproximar-se da porta devido a um grito lancinante que dera a que estava por parir. A parteira pediu que se mantivesse próximo, pois estavam ocorrendo certas complicações que talvez necessitassem de sua ajuda. E então viera o terceiro grito, seguido de um suspiro que tomou o ar de um silêncio que nem mais aos grilos se ouvia, mas tão somente à água que borbulhava ao fogo. Segundos depois o ambiente se deixa envolver pelo choro da criança, que também é interrompido inexplicavelmente. Seu Manoelito se aproxima novamente da porta do quarto, e a cena que presencia é da criança sendo entregue nos braços de sua mãe, ambas contendo um sorriso divinal, que fez o ancião derramar uma lágrima sem poder nem mesmo perceber que esta já lhe escorria pela face. E então, ouve a jovem mãe chamar o bebê pelo nome de Elvira, e interpreta as doces palavras de bênçãos que quase inaudíveis recaem sobre a criança, acompanhadas de um beijo terno à face, para em seguida, presenciar a linda jovem que acabara de parir, recostar à cabeceira da cama com a filha nos braços, e dar o último suspiro.

E seu Manoelito vê em sua mente passar as mais longas memórias daquela que viu nascer, crescer, apaixonar-se, aconselhar-se com ele chamando-o deste lado do ribeirão, enfim, passa por sua mente todos os sentimentos, os cheiros, as vozes e as luzes relacionadas com a vida que alí terminava, para também naquele instante iniciar um novo tempo de existência...

SADY FOLCH
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(Fragmento do conto desenvolvido no curso de formação de escritores)
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segunda-feira, 19 de maio de 2008

# MARCAS DE UM NOVO TEMPO (2) Continuação..

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Elvira era dessas pessoas que cativam com a própria presença. Seu olhar, seu sorriso, o seu caminhar pelo vale como estivesse em comunhão com a natureza, faziam-na parecer parte daquela paisagem, e levava as pessoas daquele lugar não apenas a admirarem, mas, sobretudo, a serem tocadas de alguma forma pela paz que estes momentos lhes transmitia. Sua doçura era confundida com sua beleza, entretanto, era sempre a sua serenidade a qualidade primeira a justificar a tranqüilidade que invadia a alma daquelas pessoas; mesmo em meio a qualquer adversidade por que estivessem passando. Diziam alguns. “A pureza de Elvira diante da vida me dá forças para enfrentar este momento.” Seu jeito de ser era tão conhecido e comentado por alguns, como exemplo a ser seguido, que habitantes de vilarejos vizinhos, tendo ouvido falar de tal comportamento chegavam a evocá-la, como se sua existência pudesse transfigurar-se de lugar, e tomando forma animada provocasse um milagre, transformando-a numa espécie de santa. Não que chegasse a esse ponto a maneira como todos a viam, mas, sim, quase como uma pessoa escolhida por Deus para representar tudo de que eram desprovidas as pessoas comuns; e clamavam em determinadas situações – “Elvira, trazei-me a tua paz e serenidade para que eu passe por esta provação!” Elvira em nenhuma dessas coisas se deixava contaminar por orgulho, vaidade ou qualquer coisa que o valha. Sentia-se uma pessoa comum, com desejos comuns, e se tivesse que dizer algo que justificasse sua maneira de ser, dizia sempre que quem a viu nascer lhe contava que sorrira de imediato, e que sua mãe a havia abençoada naquele momento, portanto, tinha motivos de sobra para ser feliz. Pequenos detalhes que para outrem passasse despercebido faziam toda a diferença no seu jeito de ser. Todos os habitantes do vilarejo se encantavam com suas observações, mas, estavam desprovidos de humanidade o bastante para se aceitarem daquela maneira. Ou talvez houvesse humanidade em demasia. O fato é que nunca entenderam sua resposta, suas atitudes, ainda que as admirassem, pois sabiam do que havia se passado ao nascer aquela doce e formosa criatura.

Seu Manoelito gostava de recordar o momento em que tinha nascido aquela criança. Foi em uma noite de São João. Fazia frio, e como era costume das pessoas daquele vilarejo e da circunvizinhança, todos iam comemorar juntos na fazenda do Coronel João. Aquelas eram noites inesquecíveis, com fogos coloridos vindos da capital da província, muita comida e bebida, além de uma banda de música da própria fazenda, o que demonstrava naquela época ser o proprietário, um homem não só de grande poder econômico, como também de bom gosto pela diversidade das artes musicais. Coisas que aprendera quando ainda rapaz, estudando na capital federal. Naqueles dias, todas as pessoas se levantavam antes do cantar do galo para se dirigirem às festividades na fazenda São João, que começava com uma missa campal logo cedo, acompanhada em seguida com um café matinal regado a leite quente com chocolate, e bolos de queijo e de arroz feitos na hora. Era um costume do anfitrião, que além de ser muito generoso com o povo daquele lugar, era também um homem de muita fé em seu santo padroeiro. No decorrer da manhã, todos se empenhavam nos preparativos da festa que se anunciava para o início da noite. Este momento era ele próprio parte integrante da festa. Um momento de confraternização entre todos, que culminava sempre em comentários divertidos durante a noite.

Entretanto, seu Manoelito naquele dia resolvera prudentemente ficar, abrindo nova exceção à sua própria, em que se permitia vez ou outra estar entre os festejos daquele lugarejo. Em especial quando da ocasião das festas de São João. Não pelo padroeiro em si, nem pelo próprio coronel, pois que não lhe cabia ser diferente em seu tratamento para com ninguém. Fazia-o há algum tempo por ter aquela data uma razão especial. Quanto a isto, tanto ele quanto o coronel, a tinham em segredo. E como era de seu hábito guardar aos que necessitassem algum cuidado, sabia que naquela ocasião a mãe de Elvira estaria quase a entrar em trabalho de parto, e a única pessoa que poderia ajudá-la havia caído enferma no dia anterior. Este homem era respeitado até pelo próprio coronel João. Todos o tinham por um homem sábio e prudente, ao qual sempre se poderia confiar em um conselho seu. Era de fato um homem singular. E o único morador do vilarejo a habitar o outro lado do ribeirão da lua, quase isolado do restante daquelas pessoas. Sua casa era ao estilo de uma choupana, porém com certos requintes de praticidade, que demonstravam o conhecimento que adquirira em suas viagens pelo mundo. Localizavam-se os fundos da casa em uma parte logo abaixo donde o ribeirão desembocava após sua descida do monte, a alguns metros depois da represa natural que lhe dava volume, e o fazia tomar rumo à esquerda em direção ao nascente. Estava incrustado entre o sopé e uma formação de árvores que eram protegidas pelo curso das águas que corriam pelo lado de fora, limites estes que tornavam o seu espaço como um verdadeiro quadrilátero. Sendo a frente da moradia limitada apenas pelo nascer do sol, espetáculo este a que contemplava todas as manhãs, sentado em um banco que mantinha para seus momentos de reflexão. Muitos o viam como a um ermitão, mas, sobretudo, lhe respeitavam devido a sua sabedoria e idade avançada. Chegavam a acreditar que ele tivesse sido o primeiro a habitar aquele vale. Fato que ele sempre lhes respondia dizendo ser toda a natureza daquele local, os que antes dele sempre ali estiveram. Outros ainda contavam histórias de que o ribeirão fora obra sua, quando da ocasião de sua chegada nestas terras depois de suas andanças pelo mundo, e tendo encontrado a nascente que estava fechada, libertou-a, permanecendo por dias e noites acampado sobre o monte, a presenciar a beleza do ribeirão que se formava em sulcos ofertados pelo vale, razão pela qual este em agradecimento, hoje lhe vertia toda a sorte de sabedoria de que lhe dava fama.

A noite já ia longa, quando a mãe de Elvira começara a sentir as primeiras contrações do parto. A festa que se encontrava a coisa de duas léguas do vilarejo era ouvida ao longe, interrompida apenas pela balbúrdia dos fogos a abafar o som do fole da sanfona, acompanhada da zabumba, da rabeca, do pífaro e tantos outros que intercalavam segundo as razões da melodia. A música era possível ser ouvida não só pelo silêncio daquele lugar, como pela geografia que delineava todo o local. As casas de todo o vilarejo eram paralelas e de frente para o vale, e os fundos acompanhavam a extensão do sopé do monte e o ribeirão, até que formasse nas extremidades um desenho em forma de uma ferradura, ou de uma lua crescente como gostavam de dizer alguns. O Seu Manoelito sentado a frente da casa de sua protegida, sussurrava quase como em prece com aquele oceano de estrelas que o contemplava, saboreando vez por outra o misturado de ervas de sua chaleira, que suspensa em um pequeno suporte acima do fogo preparado ao chão, exalava um perfume que se misturava ao ar frio daquela noite. Por detrás da casa, a quinhentos metros de distância, corria em paralelo a todas as outras habitações o ribeirão da lua, que ao descer do monte Cálimo, e passar pelas árvores que protegiam a choupana do velho ermitão, percorria toda a extensão do sopé, vertendo solene por entre as pedras que o adornavam pelo caminho. Todas as casas eram emparelhadas como um forte a proteger o que quer que estivesse por de trás. Era como se protegessem o ribeirão. A frente de seu Manoelito, se podia perceber toda a entrada do vale, que era também protegido em sua extensão até a fazenda São João por dois outros montes que se alinhavam em um perfeito corredor, a fazer daquele local uma fortaleza sem precedentes naquela região.

Num instante, e ao final de uma das saraivadas de fogos, onde a música também dera licença ao discurso que iniciaria o coronel, o ancião percebeu tornar-se o local repleto de um sonido decorrente do silêncio. Neste instante, quando só aos pequeninos grilos espalhados pela relva podia se ouvir cantar, dando coro ao bailar frenético das chamas que estalavam a madeira, ouviu-se a voz daquela jovem e solitária moça a chamar-lhe pelo nome, em meio a gemidos o que prenunciava o início do parto...
SADY FOLCH
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quarta-feira, 14 de maio de 2008

# ANDRÉ FOLCH

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Homenagem ao DESASSOSSEGO do artista plástico radicado em Boston/EUA, ANDRÉ FOLCH, que nos presenteia com sua obra em giz pastel, apresentando as dimensões de 1,60m por 1,00m.


Aqui o apresentamos para que possam clicando, ampliar e conhecer os detalhes da obra.

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segunda-feira, 12 de maio de 2008

MARCAS DE UM NOVO TEMPO (1)

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Este conto será desenvolvido em etapas, como exercício do
Curso de Formação de Escritores da ESDC-SP.
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MARCAS DE UM NOVO TEMPO (1)


Elvira como de costume, ao final da manhã, trazia para casa a trouxa de roupa que acabara de lavar no ribeirão da lua, mas, naquele dia em especial, seus passos que o caminho já a tanto conheciam, não pisavam mais com a graça embalada por sua doce voz. Eram suas lágrimas que a conduziam pela superfície da estrada que agora se tornara amarga. O Ribeirão da lua, veio d’água raso e límpido que desce do monte Cálimo, conheceu naquela manhã um remover doloroso, nascido dos olhos que por tantas vezes refletiu a alma da mais meiga criatura que pelo vilarejo teria passado. Mas agora, seu corpo mesmo no silêncio rompido apenas pelos soluços em meio às lágrimas, gritava indignado. As manhãs de acalanto pareciam ter sucumbido em meio à dor. Aquelas águas não seriam mais tocadas da mesma forma, nem acompanhadas do reflexo que lhes dava a satisfação em tecer os sulcos por entre a relva da encosta, para ao desembocarem no cálido sopé, iniciar ali o pequeno ribeirão que de pronto encontrava os raios solares a romper os galhos das árvores, transformando sua superfície em uma saraivada de brilhantes, dando o último toque de frescor a ser conservado antes de seu curso pelo vale. A esse tempo, em rápida represa pelas rochas que ali o margeavam, o fazia por instantes aguardar, até que aquecido, seguisse o curso que lhe assegurava a missão, entrecortando o vale, passando pelo vilarejo, até encontrar as mãos as quais tanto ansiava desde sua alegre decida.
Elvira conhecia pela primeira vez, refletida em suas dores, uma mulher até então desconhecida. Seu corpo, mesmo ainda possuidor da iluminada leveza que só às jovens é possível retratar sem que haja a interferência da sabedoria dos anos, deixava transparente o peso que aquele momento lhe transferira. Trêmulo e fragilizado, trazia a certeza do infortúnio que lhe abatera, juntamente com a incompreensão que sua alma, angustiada e sem páreo, lhe fazia portadora de uma tristeza tão profunda que até mesmo não encontrava mais naquele instante, a noção do tempo e do espaço a sua volta. Caminhava perdida em seus pensamentos, apenas encontrando na trilha o referencial de seus dias que lhe dava o retorno. O ribeirão ficara para trás. Seus sonhos ficaram para trás. Seu sorriso não era mais conhecido por seu rosto. Tomou Elvira de um lamento tão profundo, que aos pássaros coube um silêncio até então nunca visto por aqueles passeios.
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Sady Folch

terça-feira, 15 de abril de 2008

# Falta-nos algo...

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Outro dia eu falava sobre a ação que moveu todo um País europeu a promover modificações que se fizeram imprescindíveis naquele momento.
Ontem assistindo a um dvd do Chico Buarque, ele deu um depoimento ao falar sobre a ditadura militar e, afirmou que não há da parte dele nenhuma mágoa daquele tempo, pois, ele também encheu muito o saco dos militares, assim como eles o fizeram com ele.
E hoje, ao conversar com o porteiro do meu prédio, ouvi ele dizer que é incrível não ter ninguém que faça alguma coisa para coibir esses atos do governo federal (leia-se cartões corporativos, ministras e dossiês, entre tantos outros desvarios) que acabam ficando por isso mesmo, impunes.
Tá certo, ele é uma voz que clama angustiada diariamente, em especial ao presenciar quem só demonstra demagogia, quando no passado pregava tão somente a moralidade.
E ele completou - não foram os estudantes que tiraram o Collor? - e continuou - onde estão os estudantes que tiraram o reitor cheio de si lá em Brasília?
Pois é, já dizia o Chico Buarque em uma outra entrevista publicada em um songbook de suas canções, que naqueles tempos da ditadura chegou um dado momento em que protestavam, e ao olhar para trás, se perguntou: onde estão aqueles que deveriam engrossar estas nossas fileiras? Onde estão todos? Quase ninguém. É lastimável que o povo não lute por seus direitos, completou ele o seu pensamento à época, para o finalizar o artigo.
Será que falta-nos algo ?
"Tudo vale à pena, se a alma não é pequena". Lançar-se ao mar profundo, enfileirar as naus sem rumo, estar pronto a queimar os navios a fim de não haver retorno, senão ficar e lutar.
Antes fosse assim diante desses descasos que vivemos nos dias atuais. Mas as almas... estas estão se reduzindo à importância dos cliches midiáticos, sem nem mesmo pensarem o quanto isto possa estar lhes custando...
Falta-nos algo ? Espero que não seja olfato, pois daí, como tudo já está encoberto aos nossos olhos cegos a enxergar apenas o que nos dita a moda, também não sentiremos mais o cheiro podre que exala no reino da Din...

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Sady Folch
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sexta-feira, 11 de abril de 2008

# O lobo não esperava por essa...

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« L’important, c’est que l’action ait eu lieu, alors que tout le monde la jugeait impensable. Si elle a eu lieu cette fois-ci, elle peut se reproduire... »

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(Jean-Paul Sartre, 1968)



Com esta frase, Sartre nos dá a exata dimensão que o dever de ação tenha diante da necessidade do contexto. Ainda nestes tempos, e espero que para sempre, possa a ação ter lugar, ainda que num mundo que a julgue impensável.

A ação imperada em Maio de 68, fez com que, ao parar toda a França a reivindicar novos rumos da cultura em todos os sentidos à época, o foi não apenas para proveito individual, mas, uma requisição pelo futuro e pelo bem de todos.

Que as ações de Maio de 68 se reproduzam nestas paragens tupiniquins, como em todos os cantos do mundo onde o homem se tornou o lobo do homem...e coitadas das ovelhas que hoje já nascem velhas, nem correm nos prados, nem comida de lobo servem mais.



Sady Folch
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quinta-feira, 10 de abril de 2008

# Dias como estes...


São por dias como estes, em que o despontar da lua ao cair da tarde se depara com o fruto das queimadas, é que levanto o meu clamor pela consciência de todos.
Ou então, o que me resta é deitar as palavras indignadas que constroem o poema que não desejei. Mas que se tornou necessário. À morte que espreita, eis que sempre despontará a vida que ressurge. E caminhamos para a vida. E lutamos. E vencemos por lutar. E por deixar algo pelo que viver.
E do solo queimado...veja, acaba de nascer uma flôr.

Photo and Text by
Sady Folch

quarta-feira, 9 de abril de 2008

# Cuiabá, uma cidade que aniversaria em meio a vida só dos homens....

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Cuiabá, lugar de minha entrada na vida, ontem teus anos ficaram mais uma vez completos. És ainda uma menina, mesmo do alto dos teus 289 anos. Cidades outras pelo mundo já estão a caminho do terceiro, quarto milênio.
Mas, será que ainda hoje desejas tanto comemorar-te o nascimento parido de convenção humana ? Por isso não sei se posso te dar os parabéns.
Creio que pouco te importa nossas datas. A mesma convenção humana que deu nome aos teus limites geográficos, é a mesma que por intermédio de uns tantos, hoje aporta em teus veios, e te leva a um caminho insidioso de prosperidade, em face de uma suposta qualidade de vida, e dos interesses que não são mais os teus.
Interesses de pura nobreza, estes sempre foram os teus. Que recepcionaram com amor a toda gente que teu solo um dia pisou. Que fez com que gerações se encantassem com o teu calor, teu verde exuberante e tua diversidade.
Perdoa-nos por termos ao início de nossa civilização em tuas terras, dizimado a teus habitantes indígenas.
Perdoa-nos Cuiabá por termos quase acabado com o teu rio, que a cortar a cidade, hoje mostra as costelas, tamanha é a sua devastação. Perdoa-nos termos sumido com os teus peixes, que ao te cortar as águas de outrora, cresciam em alegria aos olhos que um dia te vislubraram repleto.
Perdoa-nos por devastar tuas matas em teu cerrado, também, em muitas vezes no passado, ordenar a matança dos jacarés de teu vizinho pantanal, e por queimarmos a tua Chapada dos Guimarães, que incrustada próxima à ti, sobeja tanta beleza distribuída em grutas, cachoeiras, e espécimes dos mais diversos.
Perdoa-nos pelas queimadas descontroladas, pelo avanço incompreensível da modernidade.
Ainda verás o dia, em que muitos dos que aí habitam, resgatar-te-ão a tua dignidade, conseguindo entender a tua generosidade quando forneces teu solo diariamente, para que cresçamos em esperança e amor ao próximo.
Este creio, seja o dia esperado por ti para comemorarmos.
Enquanto isto, recebe-nos ainda no teu amor incondicional, pois que, te agradecemos por tanta generosidade. Recebe o meu afeto. A tua lembrança vai comigo por onde eu for.
Te amo minha cidade. Não o teu nome em si, ou a data de teu aniversário, ainda que importantes para mim, mas, a terra calorosa que representa o porto seguro a muitos que aí aportam.
Cuida de nós. E ao invés de presentes, ou festas de aniversário, requer-nos a sabedoria de habitarmos teu solo com respeito e amor.
Até mais, em breve nos veremos novamente.
Você está de parabéns todos os dias.

Sady Folch
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