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Projeto literário realizado em conjunto das obras
cedidas pelo fotógrafo Fernando Borges
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Panos rotos empilhados num canto. O criado mudo sem gaveta. Isto foi tudo com que deparou quando os olhos buscaram uma marca que fosse, ou um reflexo que identificasse o passado naquele lugar. A par do impiedoso silêncio, a exemplo de todas aquelas tardes que eram lançadas em direção ao crepúsculo, somente a imagem do gradil da janela ainda se encontrava impresso na parede, ambas greladas pelo tempo. Elevada do chão até uma pequena altura, assim movia-se a janela à medida que a estrela vespertina seguia ao poente, local em que se esconde o lendário horizonte das cores vibrantes. Origem de onde se tomou de empréstimo os tons aos panos esquecidos. O destino certo que lhe reservava o ocaso dia após dia, demonstrava ainda a utilidade da velha parede, no entanto, trouxe consigo certo esboço de arrependimento àqueles lábios, devido a uma vaga lembrança do desprezo à época pelas coisas simples, das que não se dá conta durante uma vida, em que se enxerga apenas o que se quer ver, e jamais o que está a sua volta.
A imagem da janela estava inerte após completar o seu percurso, e então se entregava agora ao apoio dos braços cansados e postos em oração. Os olhos ainda dispersos percorreram o cômodo a procura em reconhecer-se. Não mais o viram. Seria tolice continuar por tal busca passada. Fixaram-se no presente, e de volta ao intercessor que ali de joelhos permanece a rogar, pode perceber o movimento que se deu constantemente naquela casa sem que qualquer um viesse a repará-lo. Ainda assim o mediador seguia cumprindo seu papel, como a janela que o vinha em testemunho ao seu encontro, a dar-lhe apoio, adoração. E aquelas imagens combinadas formavam juntas a história de um homem que é a própria luz, enquanto a um pequeno exemplo desta se prostrava a sua frente para entregar-se a ele. E ele intercedia. Por quem o será? Que me recorde do menino que fui? Ou para que te vá, solidão que me abraça o corpo transformado que sou? Diferente como as paredes que se tornaram frias, tal o passado distante em que não me enxergo mais, percebo agora a simplicidade da vida, a que não dei a atenção que me sugere hoje o coração. Na luz que persiste a minha frente creio permaneça o menino que fui, no entanto, mesmo nos olhos perdidos que me restaram lágrimas que não foram ao chão, seco e esquecido, como o coração que num dia fez morada no peito, agora se deixavam entranhar-se pela beleza de um gesto simples. Forte. Eterno. Mesmo em meio ao abandono.
E então, restou-me a recorrência àquele gesto que encontrava apoio no reflexo da janela, e que me diz o coração ressuscitado, foi aberta para que o intercessor alcançasse as mentes perdidas. Presas no passado, no presente, e pelo futuro que não se encontra. E então permaneço. Até que a última réstia de luz leve consigo a janela, e, com ela o apoio aos braços do intercessor que dela agora não precisa mais, pois, foi pelo ato destes joelhos que caíram ao chão é que se desfez toda a busca por algo que se encontra apenas na memória das janelas, impressas nas paredes e nos olhos do tempo, que hoje acompanham a estrela que conduz à iluminação da verdade.
Sady Folch
(Um peregrino na Palavra)
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Foto: Fernando Borges
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